Desafios na Transferência de Propriedades: O Impacto da Documentação no Mercado Imobiliário do Centro de Vitória
A recente notícia sobre a impossibilidade de venda de aproximadamente mil imóveis no Centro de Vitória levanta importantes questões jurídicas e registrais que merecem análise aprofundada. A matéria destaca que a principal causa para essa restrição é a ausência de documentação completa exigida pela legislação atual, especialmente em edificações mais antigas. Este cenário aponta para um complexo “limbo jurídico” que afeta diretamente as transações imobiliárias, gerando insegurança para compradores e vendedores e prejudicando a dinâmica econômica da região.
A origem do problema reside na evolução das normas legais e procedimentais para o registro de condomínios e imóveis. O advogado especialista em Direito Imobiliário, Giovarno Rosetti, aponta que legislações anteriores a 1964, por exemplo, possuíam requisitos documentais significativamente menos rigorosos. A partir de então, e com a entrada em vigor do Código Civil de 2002, as exigências para a constituição e registro de condomínios tornaram-se mais detalhadas e burocráticas. A orientação da Corregedoria-Geral da Justiça do Espírito Santo, publicada em dezembro de 2025, embora visando aumentar a segurança jurídica, acabou por evidenciar essas deficiências documentais em prédios mais antigos, que podem não possuir, por exemplo, o quadro de fração ideal devidamente elaborado e registrado, ou a identificação completa das unidades autônomas e suas destinações conforme o artigo 1.332 do Código Civil.
As implicações dessa situação são multifacetadas. Para os proprietários, a impossibilidade de registrar a venda impede a formalização da transação, o que pode inviabilizar a obtenção de financiamentos bancários para os compradores e, consequentemente, o recebimento dos valores acordados pelos vendedores. Isso cria um entrave financeiro significativo, especialmente para proprietários da classe média que dependem da venda de um imóvel para adquirir outro. Além disso, o mercado se vê forçado a negociar a posse apenas por meio de contratos particulares, expondo os compradores a riscos consideráveis e resultando em desvalorização econômica dos imóveis, que ficam, em grande parte, alijados da economia formal.
Diante deste cenário, a busca por soluções é imperativa. A Prefeitura de Vitória, por meio do Programa de Reabilitação da Área Central (ReAC), oferece mecanismos como a Transferência do Potencial Construtivo (TPC) e atua administrativamente em pendências sanáveis. Contudo, a complexidade e os altos custos envolvidos na regularização, que podem atingir centenas de milhares de reais e demandar meses de trabalho, indicam que os desafios permanecem consideráveis. A discussão sobre a atualização e simplificação dos procedimentos, sem comprometer a segurança jurídica, e a busca por mecanismos de apoio para os proprietários são cruciais para a revitalização do centro urbano e a garantia do direito de propriedade.
Fonte: Tribuna Online









